Queijarias do Oeste do Paraná transformam leite em produtos premiados e de alto valor agregado
No Oeste do Paraná, a produção artesanal de queijos deixou de ser atividade complementar e passou a operar com padrão técnico, regularidade e mercado definido. Em propriedades familiares de Palotina e Toledo, quatro agroindústrias estruturaram processos que envolvem padronização da matéria-prima, controle de maturação, conformidade sanitária e venda direta ao consumidor.
Os resultados aparecem com presença recorrente em premiações estaduais, expansão de canais de comercialização, maior valor agregado ao litro de leite e diversificação de receita com visitação e experiência gastronômica no meio rural.
Na Granja Santo Expedito, a produção que começou na cozinha de casa em 2012 evoluiu para uma agroindústria formalizada, equipada com câmaras frias e controle técnico de maturação. Em pouco mais de dois anos de operação estruturada, a queijaria acumula 18 premiações para um portfólio de 20 tipos de queijos autorais.
A estratégia adotada pelos proprietários, Alcelio e Tatiane Bombacini, foi reduzir o rebanho de 40 para 20 vacas para priorizar a qualidade e a padronização do leite. "Com menos animais, conseguimos controlar melhor a alimentação, a sanidade e a qualidade da matéria-prima. Quando transformamos o leite em queijo fino, o ganho pode ser de quatro a seis vezes maior", afirma Alcelio.
Imagem 1: Alcelio e Tatiane comandam a Granja Santo Expedito ? Foto: Divulgação/Granja Santo Expedito

Para reduzir a dependência de intermediários, a família abriu uma loja própria no centro de Palotina e mantém a propriedade aberta para visitação. Com o selo do Serviço de Inspeção Federal, a marca ultrapassou as fronteiras regionais e já planeja presença em pontos comerciais de Curitiba e São Paulo.
Entre os queijos estão criações autorais como o Faraó, com olhaduras e interior alaranjado, a Múmia, maturado em manteiga ghee e envolto em faixa micropore, e o B[bombom de Dubai, recheado com castanhas.
Produtos de maior valor agregado
Já em Toledo, a Queijaria Della Pasqua construiu outro caminho de valorização. A família tem mais de 20 anos de experiência com geleias, doces e laticínios, mas decidiu migrar para produtos de maior valor agregado. A formalização no Sistema Unificado Estadual de Sanidade Agroindustrial Familiar, Artesanal e de Pequeno Porte permitiu a comercialização em todo o Paraná.
A produção ocorre em uma área que preserva 15 alqueires de mata nativa e cachoeiras, cenário que passou a integrar a estratégia de turismo rural. "Percebemos que o consumidor quer conhecer a origem do alimento. O turismo trouxe uma nova fonte de renda e aproximou o cliente da nossa história", relata Andreia Della Pasqua.
A divisão de funções é familiar: Andreia cuida dos doces; a filha Ana Carolina dos queijos; os filhos e o genro da produção de leite; enquanto o marido auxilia na gestão e na lavoura. Entre os produtos estão o Jack Cheese, medalha de bronze no Prêmio Queijos do Paraná, o Belos Campos, um gouda maturado por seis meses, e o tradicional queijo coalho artesanal.
Imagem 2: Queijos e doces são os destaques da Queijaria Della Pasqua ? Foto: Divulgação/Queijaria Della Pasqua
-20260406234730.jpeg)
Tradição familiar em modelo de negócio
A experiência da Atani Queijaria combina memória afetiva e estratégia comercial. A fundadora, Cirlei Rossi dos Santos, transformou a tradição familiar em um modelo de venda direta por assinatura e eventos gastronômicos. Aos sábados, a propriedade recebe jantares de mesa posta, eliminando atravessadores e garantindo controle total sobre o preço.
"Quando o cliente vem até aqui, ele entende o processo, prova o produto no ambiente onde ele nasce e valoriza muito mais o que está consumindo", afirma Cirlei.
A queijaria integra a Rota do Queijo Paranaense e envolve os filhos em todas as etapas, do manejo dos animais ao design da loja. Entre os destaques estão o Nonna Lucia, maturado por 90 dias, o Tipo Morbier Café e o Tipo Saint Paulin, além do autoral Donna Rossi, comercializado em versões de 10 e 30 dias de maturação.
Imagem 3: Cirlei e a família tocam a Queijaria Atani, que promove jantares especiais aos sábados ? Foto: Divulgação/Queijaria Atani
-20260406234832.jpeg)
Referência
E na Queijaria Vila Belli, Gelir Maria Giombelli demonstra que escala não é condição para lucratividade. Em apenas três alqueires, com produção de cerca de 600 quilos de leite por mês, a produtora atua em um nicho em que o consumidor aceita pagar até cinco vezes mais por queijos com identidade e origem.
Após uma missão técnica na Itália e premiações voltadas ao empreendedorismo feminino, Gelir investiu na modernização da ordenha para garantir sanidade e qualidade do leite. "A qualidade do queijo começa na ordenha. Sem isso, não existe maturação que resolva", resume.
O portfólio inclui o Tomme Negro d'Oeste, inspirado no paladar regional, o Colonial nas versões fresca e maturada e o autoral Belagio, maturado com erva-cidreira.
Imagem 4: Gelir empreende junto da família na Queijaria Villa Belli ? Foto: Divulgação/Queijaria Villa Belli
-20260406234926.jpeg)
Produto de identidade
Apesar de trajetórias distintas, as quatro queijarias compartilham profissionalização da produção, domínio técnico da maturação, certificações sanitárias e proximidade com o consumidor. O leite deixa de ser vendido como commodity e passa a ser transformado em produto de identidade, história e alto valor agregado.
O movimento já chama atenção de outras regiões do estado, interessadas em replicar o modelo que alia tradição familiar, técnica e visão de mercado para transformar pequenas propriedades em agroindústrias rentáveis.
